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O maior aumento que eu já dei na vida — e não foi pra um humano

20 de maio de 2026

Na semana passada eu tomei uma decisão de investimento que, há um ano, eu acharia exagerada. Estes são os três motivos pelos quais ela faz sentido — e por que talvez faça sentido pra sua empresa também. 

O maior aumento que eu já dei na vida — e não foi pra um humano 

Há alguns anos, eu estava há quatro anos e meio na mesma empresa quando recebi uma proposta de um ex-professor meu da FGV para trabalhar com ele. O salário era exatamente o mesmo. Era uma troca lateral, e eu topei porque queria viver outro mercado, mesmo com o casamento marcado e a vida pedindo dinheiro. 

Quando comuniquei a saída, meus gestores pediram que eu ficasse. Eu disse que não queria negociar e fui embora. 

Três dias depois, minha chefe me ligou insistindo para saber quanto eu estava ganhando na nova posição. Eu falei: três vezes mais. Falei porque tinha certeza de que eles jamais cobririam aquilo. 

Na mesma tarde, o telefone tocou de novo. Era ela me perguntando se eu podia voltar no dia seguinte, recebendo as três vezes mais. 

Voltei. A gente trabalha por prazer, mas trabalha por dinheiro também. E aquele foi, durante muitos anos, o maior aumento que eu já tinha vivido. 

Conto essa história porque, semana passada, eu dei o maior aumento da minha vida. E não foi de 3x. Foi de quase 6x. Para o Claude, da Anthropic. 

Por que esse aumento 

Eu usava o plano de pouco mais de cem reais por mês. Saí dos dois dias do AI Festival 2026 (StartSe, São Paulo, 13 e 14 de maio) com uma certeza incômoda: o que eu estava enxergando da ferramenta era a fresta de uma porta. Migrei sem pensar duas vezes para o plano de quase R$ 600 por mês — mais processamento, mais capacidade, mais espaço para deixar a ferramenta trabalhar de verdade ao meu lado. 

O ponto não é o valor. É o porquê. E o porquê vale ser destrinchado para qualquer empresário que esteja olhando hoje para uma planilha de investimento em IA e tentando decidir onde colocar dinheiro, em quanto, e a partir de quando. 

O primeiro insight: custo por token mente 

No palco principal do AI Festival, Henrique Savelli, arquiteto de IA da Anthropic, disse uma frase que eu não consegui mais tirar da cabeça: “Hoje há concorrentes com custo por token

mais barato que o Claude, mas se você for olhar custo por tarefa cumprida, somos mais baratos que eles.” 

Essa distinção é simples e revolucionária para quem decide compra de tecnologia. Olhar custo por token é como olhar custo de matéria-prima sem olhar quanto produto sai daquela matéria-prima. Faz sentido para o departamento de compras, não faz sentido para o tomador de decisão estratégica. 

Em poucas semanas usando a ferramenta em modo mais intenso, eu passei a entregar análises em horas que antes me consumiam dias. O plano mais caro não é mais caro: ele é mais barato por entregável. E quando você muda a unidade de comparação, a decisão de investimento muda junto. 

Para a média empresa, esse é o primeiro filtro que eu recomendo aplicar quando alguém vier oferecer “uma solução de IA mais barata”. Pergunte qual o custo por entregável real, considerando tempo de revisão, retrabalho e qualidade do que sai. A conta muda. 

O segundo insight: velocidade sem governança vira passivo 

Rafael Siqueira, partner da McKinsey, foi cirúrgico no mesmo palco: “Ninguém aceita mais um software ou aplicação levar 70 dias para ser feito.” A pressão por velocidade não é mais uma escolha estratégica. É um piso. Cliente, mercado e concorrência impõem um ritmo que só a IA entrega. 

Mas Siqueira fez questão de marcar a outra metade da equação: velocidade sem governança vira passivo. Vibe coding (codar no improviso com IA, sem regra) dá produto, mas também dá dado vazado, retrabalho e risco jurídico. O caminho que ele defendeu é o de uma engenharia agêntica com governança — regras claras de uso, controle de acesso, rastreabilidade. 

Traduzindo para fora da engenharia, vale para qualquer área da empresa que esteja usando IA hoje sem combinado: marketing rodando campanha com dado de cliente em ferramenta não autorizada, financeiro colando contrato confidencial em prompt público, atendimento gerando resposta sem revisão humana. A velocidade é real. O passivo também. 

Para a média empresa, o segundo filtro é: antes de escalar uso de IA, defina o combinado. O que pode entrar, o que não pode entrar, quem revisa, quem assina. Sem isso, o ganho de velocidade vira contingência de crise lá na frente. 

O terceiro insight: a janela de escolha está fechando 

Maurício Benvenutti, sócio da StartSe, deu a palestra mais filosófica do evento. A frase que ficou foi essa: “A Revolução de Gutenberg afetou uma profissão. A Revolução da Inteligência Artificial afeta todas. Quem negar o novo, corre o risco de se tornar o copista do século XXI.”

Em paralelo, Cristiano Kruel, CIO da StartSe, defendeu o conceito de AI Tinkery, inspirado em Stanford: a disciplina de aprender fazendo, experimentar, errar pequeno, acertar grande. A tese: não dá pra estudar IA na teoria por seis meses antes de usar. Quem espera, perde. 

Os números reforçam a urgência. Uma pesquisa recente do Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha mostrou que 93% dos brasileiros já usam alguma ferramenta de IA, mas apenas 54% entendem o que é inteligência artificial. A tecnologia já está dentro da empresa, na mão de cada colaborador, mesmo que a empresa formalmente não tenha decidido nada sobre isso. 

A janela de decisão não é entre adotar ou não adotar. É entre adotar com critério ou adotar por inércia. Quem entra primeiro com método define o padrão da própria empresa, do próprio setor. Quem entra depois, corre atrás de algo que já está acontecendo dentro da organização sem governança. 

O critério prático: a lógica dos 3 SIMs 

Voltando ao Savelli da Anthropic, ele deixou um critério prático para decidir quando usar IA agêntica em alguma tarefa do negócio. Eu adotei como heurística e recomendo: 

Antes de implementar IA em uma rotina, faça três perguntas. A primeira: essa tarefa tem entregável claro? A segunda: o contexto necessário está em um sistema que dá pra conectar? A terceira: dá pra revisar o que a IA produzir mais rápido do que faríamos do zero? 

Se as três respostas são sim, IA é alavanca. Se alguma é não, é só barulho. Essa lente, simples, filtra muito do desespero atual de “implementar IA porque todo mundo está implementando”. Aplique antes de qualquer contrato. 

O que isso muda na decisão de investimento 

Junte as três pontas. Custo por entregável (não por token). Velocidade com governança. Janela de escolha apertando. 

A conclusão prática é uma: a evolução da tecnologia só vira valor quando a empresa sabe usar com eficiência. Pagar mais pelo Claude só fez sentido para mim porque eu já tinha contexto do meu trabalho, do meu negócio, do que eu queria automatizar. Sem isso, eu estaria queimando R$ 600 por mês com a sensação de estar moderna. 

A mesma lógica vale na decisão da sua empresa. Antes de investir em ferramenta, investir em arquitetura de uso. Antes de assinar plano enterprise, mapear o que de fato vai gerar entregável. Antes de comprar IA, decidir como ela entra na rotina das pessoas que já estão na empresa. 

O empresário que sai disso bem posicionado é o que consegue investir nas três pontas ao mesmo tempo, não em uma só:

A primeira ponta é tecnologia. A segunda é governança. A terceira, e provavelmente a mais subestimada, é capacitação. Não basta colocar Claude, Gemini e Cursor na mão da equipe. As pessoas precisam aprender a usar com critério, com contexto do negócio, com leitura do cliente. Sem isso, a tecnologia mais cara do mundo entrega o mesmo resultado da gratuita. 

Por que 2026 é o ano de decidir isso 

Uma fala que ouvi nos painéis sobre agentes ficou comigo: 2026 é o ano em que os agentes saem da engenharia e entram no resto da empresa. Marketing, vendas, financeiro, jurídico, atendimento. O que era prova de conceito em time de tecnologia vira operação cotidiana nas outras áreas. 

Isso significa que a janela em que o empresário podia tratar IA como “tema do TI” está fechando. A decisão volta para a mesa da liderança: quais áreas começam, com qual critério, com qual investimento, com qual capacitação. 

A boa notícia é que a régua de entrada não é mais técnica. É estratégica. Se a sua empresa tem clareza do que entrega, de quem entrega, e do que quer escalar, você tem a base do que precisa pra decidir bem sobre IA. Se essa clareza não existe, o problema não é IA. É posicionamento. 

Para fechar 

Eu não dei um aumento de quase 6x para o Claude porque fiquei animada com a tecnologia. Dei porque, depois de dois dias ouvindo Anthropic, McKinsey, Google, DeepMind, IBM e MIT, ficou claro que o retorno por entregável justifica o investimento — desde que o contexto de uso já esteja maduro. 

A pergunta que eu deixo para você é a mesma que estou levando para cada cliente que atendo: a sua empresa está investindo em IA, em governança e em capacitação ao mesmo tempo, ou está apostando todas as fichas em uma só das três pontas? 

A resposta a essa pergunta provavelmente vale, ao longo de 2026, mais do que qualquer aumento que você der ou receber. 

Vou continuar trazendo por aqui, nas próximas semanas, as leituras que estou consolidando do AI Festival e do que estou aplicando em projeto de cliente. Se quiser acompanhar de perto, fica de olho na newsletter e nos próximos materiais. 

– Natt da N!