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Em qual fase de IA sua empresa está hoje?

22 de maio de 2026

Em qual fase de IA a sua empresa está hoje? 

Faço essa pergunta como ponto de partida porque, depois do AI Festival 2026, eu acredito que ela é a pergunta certa antes de qualquer outra discussão sobre IA na empresa. Antes de escolher ferramenta, antes de aprovar orçamento, antes de capacitar equipe. 

A pergunta importa porque hoje existe um descompasso silencioso na maior parte das empresas. Praticamente todo mundo está usando alguma coisa de IA — quase sempre ChatGPT solto, no navegador, na conta pessoal de cada colaborador. Mas usar IA solta no navegador não é estar em nenhuma fase de adoção real. É estar em uma zona de improviso. E essa improvisação cria um risco que poucos empresários estão medindo. 

A boa notícia é que existe um mapa simples para organizar isso. E ele veio direto do palco da Microsoft Brasil. 

O mapa: as 3 fases de adoção de IA 

Tania Cosentino, presidente da Microsoft Brasil, apresentou no AI Festival a divisão que a Microsoft usa para classificar onde cada empresa está hoje. 

Fase 1 — IA como assistente. Chatbot, copilot básico, ChatGPT no navegador. A pessoa pede, a ferramenta responde, a pessoa avalia, a pessoa aplica. Tudo passa pelo humano em cada passo. É a fase em que praticamente todas as empresas começam, e em que a grande maioria do mercado brasileiro está hoje. 

Fase 2 — IA com agentes experts inseridos em áreas. Não é mais um chatbot genérico. São agentes específicos para rotinas específicas: um agente que faz onboarding de funcionário

novo, um agente que organiza fechamento financeiro, um agente que prepara primeiras versões de proposta comercial. Cada um com escopo definido, conectado a dados da empresa, com responsabilidade clara de quem aprova o que sai. 

Fase 3 — liderada por humano, operada por agentes. Os workflows são autônomos. O humano deixa de ser executor para ser regente — define escopo, supervisiona, valida pontos críticos, intervém quando necessário. A Microsoft global é o exemplo concreto: 40% do desenvolvimento de software é feito por IA, sem demissão, com 4x mais velocidade de lançamento. A Microsoft Brasil, com 1.300 funcionários, tem 5 pessoas no RH e 6 no financeiro, empoderadas por agentes. 

Justin Liu, cofundador da Genspark, completou o cenário com o dado mais duro do evento: 78% das empresas dizem ter estratégia de IA. Menos de 15% têm agentes efetivamente em produção. Em outras palavras, a maior parte do mercado está na fase 1 e finge estar em outra. 

Por que ficar na fase 1 não é mais uma decisão sustentável 

Rafael Siqueira, partner da McKinsey, foi cirúrgico no festival: “Ninguém aceita mais um software ou aplicação levar 70 dias para ser feito.” A pressão por velocidade não é uma escolha estratégica. É um piso. Cliente, mercado e concorrência impõem um ritmo que só a fase 2 entrega de verdade. 

Quem fica na fase 1, dependendo exclusivamente de ChatGPT na conta pessoal do colaborador, está pagando um preço duplo. Não tem o ganho de produtividade real, porque a ferramenta solta entrega pouco. E tem o risco silencioso, porque a ferramenta solta não tem governança. 

A escolha hoje não é entre adotar IA e não adotar. É entre adotar com método ou adotar por inércia. 

Por que a maioria trava entre fases 

Tania trouxe um diagnóstico que vale ouro para qualquer empresário entender o que está acontecendo dentro da própria empresa, mesmo sem perceber. Ela descreveu assim: a demanda de IA vem da área de negócio. A preocupação com governança vem da área de TI. Quando essas duas não trabalham juntas, o que acontece dentro da empresa é proliferação descontrolada de agentes. 

Tradução prática: cada área da sua empresa, sem combinado, já contratou ou está usando uma ferramenta de IA. Marketing está em uma. Vendas em outra. Financeiro em outra. RH em outra. A empresa formalmente está na fase 1, mas informalmente está em uma fase 2 caótica — com dados de cliente passando por ferramentas não auditadas, contratos sendo redigidos em prompts públicos, propostas comerciais sendo geradas sem critério de marca, conversas com cliente sendo coladas em chat para “resumir”.

Esse cenário é o pior dos dois mundos. Não tem o ganho da fase 2 organizada, e tem o risco da fase 2 sem regra. 

Justin Liu fechou a equação com a frase que mais provoca empresário: “Quem responde na cadeia de confiança não é a IA.” A responsabilidade legal, ética e operacional continua humana. Se algo dá errado em um contrato gerado por IA, em um dado vazado por prompt indevido, em uma resposta a cliente que sai do tom da marca, a responsabilidade volta para a empresa. A IA não responde pelo que ela faz. 

E é exatamente por isso que governança não é entrave da adoção. É pré-requisito dela. 

Os 4 pré-requisitos para passar entre fases com segurança 

Cruzando o que Tania, Justin e Siqueira disseram, saem quatro pré-requisitos que qualquer empresa precisa atender antes de avançar. 

Governança madura. TI e Negócio na mesma mesa, antes de implementar, não depois. Sem isso, o que se chama de “adoção de IA” vira proliferação descontrolada, com risco superior ao ganho. 

Memória externa da empresa. Para agentes funcionarem em horizonte longo, é preciso memória de tarefa, pessoa e organização — não basta janela de contexto. Sem isso, todo passo começa do zero e o ganho de produtividade não se sustenta para além de tarefas curtas. 

Engenharia agêntica com regra. Velocidade que não vira passivo. Escopo de permissão definido, trilha de auditoria registrada, responsabilidade humana clara. Não é “IA para todo mundo agora”, é IA com critério, registro e revisão humana definida. 

Mudança cultural e capacitação. As pessoas precisam aprender a reger a IA, não só usá-la. Validar saídas, supervisionar workflows, identificar onde a IA está produzindo bom resultado e onde está produzindo erro disfarçado de fluência. Sem isso, o investimento em ferramenta não converte. 

O empresário que olha esses quatro e percebe que falta pelo menos um está dizendo que a empresa ainda não pode passar para a próxima fase com segurança. O empresário que tem os quatro encaminhados, pode. 

Checklist rápido — em qual fase sua empresa está? 

Responda mentalmente, com honestidade: 

  1. Existe um combinado interno, escrito, sobre quais ferramentas de IA podem ser usadas pelos colaboradores e em qual tipo de dado? Sim / Não
  2. As áreas estão usando IA com permissão e supervisão do TI, ou cada uma contratou a sua por conta? Combinado / Cada uma a sua 
  3. Existe pelo menos uma tarefa repetitiva da empresa hoje sendo executada por agente, com escopo definido e revisão humana clara? Sim / Não 
  4. Quando algo dá errado em uma saída de IA, está claro quem responde, quem revisou, quem aprovou? Sim / Não 
  5. A empresa tem investido tempo em capacitação real das pessoas, e não só em assinatura de ferramenta? Sim / Não 

Se a maioria das respostas foi “não” ou “cada uma a sua”, a empresa está em fase 1 com risco escondido — não em fase 2, como talvez parecesse. 

Se a maioria foi “sim” e o combinado existe, a empresa está em transição segura entre fase 1 e fase 2. 

Se as cinco respostas são sim, e já há agentes operando workflows com supervisão humana definida, a empresa está pisando na fase 3. 

Em qual fase você quer estar daqui a 12 meses? 

A pergunta de partida deste texto era em qual fase a sua empresa está hoje. A pergunta que fecha é em qual fase você quer estar daqui a 12 meses, e o que precisa começar a construir agora para chegar lá. 

O caminho não é misterioso. Está nos quatro pré-requisitos acima. E quem começa a trabalhar neles agora, devagar, com método, chega na frente de quem fica esperando o cenário “estar mais claro”. O cenário não vai ficar mais claro. Vai ficar mais rápido. 

Convite 

Se você está nessa decisão hoje, deixo um convite específico: responda esse email com o maior gargalo de governança de IA que você identifica na sua empresa agora. Pode ser falta de combinado, proliferação de ferramentas, ausência de auditoria, falta de capacitação, qualquer coisa. Vou consolidar os gargalos que recebermos e trazer leituras práticas nas próximas edições da newsletter, sem expor empresa nem pessoa, usando o que vocês trouxerem como matéria-prima para responder o que mais ajuda. 

Até a próxima.