A Localiza foi a primeira marca brasileira a vender dentro do ChatGPT
26 de maio de 2026
Imagine a cena. Você abre o ChatGPT no celular, digita @Localiza e escreve: “preciso de um carro por três meses em São Paulo”. Em poucos segundos, o agente da Localiza dentro do ChatGPT te apresenta uma opção de locação. Se a sua mensagem fosse outra (“estou pensando em comprar um seminovo” ou “quero assinar um carro por mês”), o mesmo agente te direcionaria pra outra das três ofertas da empresa: locação, seminovos ou assinatura.
Essa cena não é projeção. É o que a Localiza, marca brasileira de 53 anos, já roda hoje. Foi a primeira empresa do Brasil a lançar uma experiência integrada dentro do ChatGPT, com as três ofertas de mobilidade conversando entre si dentro de um único canal.
No artigo da semana passada, conversamos sobre o Shopper Schism, o construto que Paul Accornero apresentou no AI Festival 2026 pra nomear uma mudança estrutural no comportamento de compra: o comprador e o consumidor estão se separando, e a marca passa a precisar conversar com duas entidades ao mesmo tempo, uma humana e uma algorítmica. Hoje trago o case que mostra, na prática brasileira, o que isso já significa no terreno real.
Quem é a Localiza hoje
Pra entender o tamanho da virada, vale calibrar quem é a empresa. A Localiza tem 53 anos, 650 mil carros na frota, 855 pontos de experiência, 22 mil colaboradores, opera em 8 países e é a 8ª marca mais valiosa do Brasil. É o maior valor de mercado de rent-a-car do mundo. Não é nativa digital, não é startup. É a empresa tradicional, brasileira, que decidiu reposicionar sua relação com o cliente antes da concorrência começar a reagir.
A palestra que motivou esse texto foi do André Petenussi, CTO da Localiza&Co. Ele lidera o Localiza Labs, área de tecnologia da empresa com 1.500 pessoas, 18 tribos e 125 squads. O que ele entregou no palco foi o playbook de duas frentes simultâneas que a Localiza vem rodando.
A frente interna: como a empresa produz
A primeira frente é como a empresa trabalha por dentro. Os números que ele compartilhou são concretos:
- 12 mil colaboradores treinados em IA dentro da Localiza.
- Mais de 4 mil agentes compartilhados orquestrados entre as áreas.
- 200% de aumento de produtividade no time de tecnologia no último ano. – 84% de todo o código gerado dentro do Localiza Labs no último trimestre veio de algum agente, com humanos orquestrando o processo.
O dado que mais chama atenção é o 84%. Contraria a expectativa inicial do mercado, que dizia que o setor de tecnologia seria o último a ser impactado pela IA. Estudo recente da Anthropic já mostra o contrário: tecnologia está entre os setores mais impactados, e o salto de produtividade acontece em quem entra cedo.
A frente externa: como o cliente compra
Aqui está a parte mais relevante pra quem decide marca e marketing. A Localiza opera, em paralelo, uma plataforma multiagente chamada Lisa. São mais de 15 agentes especialistas, com escopo definido por área: atendimento por texto e voz, locação, gestão de reserva, motorista de aplicativo, seminovos. Cada um conversando entre si dentro da experiência do cliente.
E aí veio o salto. A Localiza foi a primeira marca brasileira a lançar uma experiência integrada dentro do ChatGPT. O cliente abre a plataforma da OpenAI, dá um @Localiza, descreve a necessidade de mobilidade que tem naquele momento, e o agente direciona pra uma das três ofertas: alugar, comprar ou assinar. É a primeira vez que essas três frentes da empresa estão num único canal de conversa. E esse canal está dentro da plataforma onde o cliente já está passando boa parte do dia.
A métrica nova que apareceu
Junto com esse lançamento apareceu uma métrica que, há dois anos, ninguém da equipe de marketing ou tecnologia da Localiza monitorava. Hoje monitora.
A métrica é o tempo que um agente externo, em modo coworking, leva pra fazer uma reserva no site da Localiza.
Em outras palavras, a empresa não está mais otimizando o site só pra navegação humana. Está otimizando pra leitura por agente. Da mesma forma que o SEO, na década passada, ensinou as empresas a deixar os sites mais legíveis pro Google, agora a Localiza está ensinando o seu site a ser mais legível pro agente do cliente.
Essa é a virada conceitual mais importante da palestra. O canal de venda não está deixando de existir. Está ganhando uma camada nova de leitor, que não é mais só humano.
As 3 camadas de transformação do canal
O André propôs uma forma simples de organizar isso, e funciona como mapa pra você pensar a sua empresa. São três camadas que, ao longo dos próximos anos, toda marca vai atravessar em algum grau.
Camada 1. Evolução dos canais digitais existentes. Site, app, landing page. Continuam relevantes, mas ganham um requisito novo: serem legíveis por agente. Significa estrutura de dado padronizada, especificação clara de produto, navegação pensada pra leitura assistida.
Camada 2. Interfaces sem interface. Produtos e serviços consumíveis por agente direto, sem precisar da tela visual. O cliente pede, o agente executa, a tela só aparece se a pessoa quiser conferir.
Camada 3. Presença onde o cliente está conversando agora. ChatGPT, Claude e Gemini viraram, nas palavras do próprio André, “top partners” do cliente. Ele passa horas do dia ali, pesquisando, decidindo, conversando. A Localiza decidiu ir até onde o cliente está, em vez de esperar o cliente vir até onde a Localiza já estava.
O contexto que torna esse movimento relevante
Os dados de adoção que rondam essa conversa são o pano de fundo importante. 77% dos brasileiros já declararam usar alguma ferramenta de IA, e o Brasil ultrapassou os Estados Unidos em adoção proporcional. O ChatGPT tem 900 milhões de usuários ativos por semana no mundo. Metade dos consumidores americanos já usa IA como ferramenta de busca em decisão de compra. A McKinsey projeta que cerca de 750 bilhões de dólares de receita global vão fluir por busca em IA até 2028.
Esses dados não pedem desespero. Pedem leitura.
O ponto que vale guardar
A Localiza não chegou nesse lugar porque já tinha tudo pronto. Chegou porque começou cedo, com time pequeno e alinhado, ciclos rápidos de acerto e erro, e disposição pra repensar o canal antes de o canal pedir socorro. Em paralelo, manteve tudo o que sempre funcionou: as 855 lojas físicas continuam ativas, o site continua no ar, o app continua na mão do cliente. A camada nova somou, não substituiu.
Esse é talvez o ponto mais importante pra você ficar dessa leitura. As camadas de experiência do cliente se acumulam, não se substituem. O físico (1970), a web (2000), o app (2010), o agente em GPT (2024). Cada uma serviu à conveniência do cliente daquele momento. Sua marca não vai ser obrigada a estar nas quatro ao mesmo tempo amanhã. Vai precisar saber, com clareza, em qual delas o seu cliente está hoje, em qual ele estará amanhã e quanto tempo você tem pra se posicionar nessa próxima camada.
A pergunta que o artigo da semana passada abriu segue valendo, agora com mais contexto. Quando o agente do seu cliente faz uma busca relacionada ao seu negócio, o que ele encontra? Quem está conversando com ele em seu nome?
Convite
Vou continuar trazendo, nas próximas edições, leituras como essa, sempre cruzando o que estamos vendo no mercado com o que aplica de fato no negócio de média empresa. Se você caiu por aqui agora e quer ler os artigos anteriores da série sobre o AI Festival 2026, deixei todos publicados no blog da N!.
Te convido a acompanhar.
Até a próxima.