Em Niterói, a Copa do Mundo já começou no comércio
1 de junho de 2026
Pesquisas projetam alta de até 150% no movimento de bares em dia de jogo, e empresários da cidade explicam como pretendem transformar cada partida em faturamento.
A Copa do Mundo não mexe apenas com a torcida. Ela mexe com o caixa. Antes mesmo da bola rolar, bares, restaurantes e lojas de Niterói já reorganizam estoque, cardápio e vitrine para transformar o mundial em resultados positivos. E os números explicam por que tanta gente está se preparando.
Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil estima que 99,2 milhões de brasileiros pretendem comprar algo por causa do Mundial de 2026, com gasto médio de R$ 619 por consumidor, valor que sobe para R$ 784 entre as classes A e B. Mais revelador que o volume, porém, é o motivo da compra: 97% dos torcedores dizem que vão assistir aos jogos em grupo, principalmente com a família e os amigos. O consumo da Copa é, antes de tudo, um consumo de companhia. Não se compra para ver futebol, compra-se para ver futebol junto.
É aí que o comércio local encontra sua brecha. Quando a experiência coletiva vira o produto, o ponto físico deixa de competir só por preço e passa a competir por clima. No setor gastronômico, a expectativa é de aumento expressivo no fluxo. Levantamento da Goomer, empresa de tecnologia para o foodservice, projeta crescimento de até 150% no movimento de bares e restaurantes nos dias de jogo da Seleção, com base no desempenho de edições anteriores, quando esses dias registraram mais de 93% de alta nos pedidos e 63% no faturamento. Para 2026 há um detalhe a favor do setor: boa parte das partidas acontece à noite e nos fins de semana, justamente quando as pessoas têm tempo de sair, ficar e gastar.
Estabelecimentos da cidade já leem esse movimento. O Macaw, em Camboinhas, preparou uma programação para todos os dias de jogo, com DJ, telão e kits de produtos de parceiros para quem assiste às partidas no local, além de welcome drink e dose dupla de drinks ou chopp a cada gol do Brasil. A lógica não é vender uma refeição, é vender uma experiência. Cada jogo vira um evento social, e o consumo aparece como consequência da permanência, não como objetivo declarado.
A leitura de quem está à frente do negócio é otimista, mas sem ingenuidade. “O Macaw funciona mais na parte do dia, e como os jogos são no fim da tarde e à noite, a gente consegue somar no faturamento. Na Copa passada, mesmo com a casa recém-aberta, o retorno foi bom. Estou animado, acho que vai ter retorno tanto em Niterói quanto em Búzios”, conta Alexandre Ribeiro, sócio do estabelecimento. Ele faz, porém, uma ressalva que todo varejista carioca entende: “O tempo interfere muito no varejo do Rio. Tenho opinião formada, o carioca não sabe viver na chuva. Tem vários fatores segurando as vendas, mas sigo otimista.”

Macaw, em Camboinhas, preparou uma programação para todos os dias de jogo.
O varejo de moda entra na Copa por outra porta, a do desejo. A Bullarru, marca niteroiense de couro premium que abriu as portas em novembro de 2024, lançou sua primeira coleção temática, uma edição limitada de blusas de lantejoulas com a cara do Brasil, voltada a um público que quer torcer sem abrir mão de exclusividade. O lote esgotou por encomenda, antes mesmo de as peças chegarem à loja. “Somos uma marca que acabou de chegar à cidade, e ainda assim a coleção da Copa esgotou antes de as peças ficarem prontas”, diz Fabiana Fanni, sócia da Bullarru.

A Bullarru, lançou sua primeira coleção temática, uma edição limitada de blusas de lantejoulas com a cara do Brasil.
O que esses dois movimentos têm em comum é a recusa em tratar a Copa como mera promoção sazonal. O impulso de compra em grandes eventos esportivos não nasce só do fluxo maior de pessoas, nasce do estado emocional que o evento cria. Pertencer, celebrar e compartilhar são gatilhos mais fortes que qualquer desconto. Por isso os negócios que melhor aproveitam o período não são os que baixam preço, são os que constroem experiência.
Fica a pergunta que o varejista de Niterói pode levar para além de julho: se um campeonato de futebol consegue transformar uma blusa de lantejoulas e uma noite de telão em objeto de desejo, o que impede a marca de criar pertencimento no resto do ano? A Copa passa. A vontade das pessoas de comprar aquilo que as faz sentir parte de algo, essa fica.
Fontes dos dados: Pesquisa CNDL/SPC Brasil em parceria com a Offerwise (maio de 2026); projeção Goomer para bares e restaurantes.