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Depois de quem compra, quem constrói

28 de maio de 2026

Imagine o gerente de logística com vinte anos de casa. Ele sabe, melhor do que ninguém na empresa, onde está o gargalo da operação. Sabe quais combinações de rota acontecem com mais frequência, quais fornecedores atrasam mais, quais relatórios chegam fora do prazo toda semana. Sabe inclusive a planilha exata que ele e a equipe vão precisar limpar todo final de mês porque ninguém ainda conseguiu automatizar aquilo. 

O que mudou nos últimos doze meses é simples. Hoje esse gerente pode resolver. Sem depender do backlog do time de TI. Sem pedir orçamento pra contratar dev externo. Sem esperar a próxima rodada de priorização do comitê de tecnologia. 

Nos artigos anteriores conversamos sobre o que está mudando do lado do cliente. O Shopper Schism (o divórcio do comprador e do consumidor) e o case da Localiza (a primeira marca brasileira a vender dentro do ChatGPT). Hoje volto pro lado de dentro da empresa, pra olhar a outra metade dessa virada. O cliente está mudando o jeito de comprar. O time da sua empresa está mudando o jeito de construir.

O contexto: vibe coding deixou de ser brinquedo 

A palestra que motivou esse texto foi do Marcelo, Country Manager do Replit no Brasil. O Replit é uma das principais plataformas globais que permitem essa nova forma de construir software, e o Marcelo trouxe a linha do tempo que ajuda a entender por que isso aconteceu tão rápido. 

Em 2021, a IA dentro do código se resumia a autocomplete (sugestão de linha de código pro programador). Em novembro de 2022 chegou o ChatGPT e abriu a era do prompt. Em setembro de 2024 o Replit lançou o primeiro agente que permitiu uma pessoa não-técnica criar e publicar software sem escrever código. Em fevereiro de 2025, Andrej Karpathy (ex-Tesla, ex-OpenAI) cunhou o termo vibe coding pra descrever esse novo jeito de programar conversando com IA. No mesmo ano, o dicionário Collins elegeu vibe coding a palavra do ano. Agora, em 2026, a fronteira já é a orquestração de múltiplos agentes trabalhando em paralelo no mesmo projeto. 

Cinco anos. É a janela em que o que era ferramenta de programador virou ferramenta de negócio. 

A tese: a pessoa mais próxima do problema constrói a solução 

A frase do Marcelo que mais se grudou foi essa: a pessoa mais próxima do problema é a melhor pessoa pra construir a solução. 

A barreira que separava a profissão técnica das profissões de negócio caiu. Hoje, dentro de uma empresa que se organiza pra esse cenário, o desenvolvedor faz design, o designer programa, o product manager entrega produto do início ao fim, o profissional de marketing lança ferramentas e automações, e o profissional de área (logística, RH, financeiro) transforma a planilha bottleneck em sistema funcional. Não é discurso utópico. É o que está acontecendo dentro de empresas como Zillow, American Express e iFood, todas clientes do Replit hoje. 

O dado complementar que reforça a virada é que, dentro do Google, 75% do código já é gerado por IA. Não é só pessoa não-técnica entrando na construção. É também o próprio time técnico operando com um ganho de produtividade que redefine, na prática, o que significa “ter time pequeno e ser ágil”. 

Os cases que mostram o tamanho da virada 

O Marcelo trouxe casos progressivos. Vale a pena ler em sequência porque escalam do trivial ao financeiramente material. 

Os filhos dele, de seis e oito anos, recriaram uma versão funcional do Minecraft conversando com IA. Sem aula, sem livro, sem mentor. A esposa, nutricionista de formação, publicou um app nativo para iOS direcionado a outros nutricionistas (foto do prato, cálculo de macros via IA, comparação com a dieta do paciente). Subiu o app na Apple Store sem nunca ter usado Mac ou Xcode. A tag no app diz que mais de 2.400 nutricionistas já usam. 

O caso de maior peso veio do Mike Messenger, à época Product Manager na Zillow, uma das maiores plataformas de imóveis dos Estados Unidos. Em um fim de semana, sem suporte do time de engenharia, ele construiu um aplicativo interno pra rotear leads pro corretor mais próximo do imóvel. O resultado foi um aumento de 10% na conversão da Zillow, o que equivaleu a mais de US$ 100 milhões ao ano em receita adicional. O Mike virou head de IA da Zillow e advisor de outras empresas. O Marcelo usou esse case como prova final da tese. 

No Brasil, o cliente mais visível é o iFood. Bruno Henrique, CEO da empresa, definiu o lema interno de 2026 como “superpoder”, a ideia de colocar IA na mão de cada profissional da empresa, do desenvolvedor ao operacional. É exatamente a mesma tese da palestra, em escala enterprise. 

O outro lado: risco em escala 

Aqui está a parte que diferencia uma leitura séria desse tema de uma matéria empolgada qualquer. A democratização da construção de software vem com risco em escala. Vale uma frase do Marcelo grifada: quando você tem criação de software em escala dentro de uma empresa, você tem risco em escala. 

O que isso significa na prática. Chaves de acesso a sistemas críticos esquecidas dentro de código publicado. Dados de cliente vazando porque o profissional de marketing não sabia que a forma como ele construiu o formulário expunha a base toda. Aplicações internas rodando em produção sem controle claro de quem tem acesso, quem publicou, quem pode reverter. Esses cenários começam a aparecer no momento em que a empresa libera o vibe coding internamente sem desenhar antes a camada de governança. 

A leitura estratégica que vale fazer é essa. Daqui pra frente, governança de construção interna deixa de ser tema burocrático de área técnica e vira diferencial competitivo. As empresas que vão extrair valor real desse movimento são as que conseguirem combinar duas coisas que parecem opostas: liberar a pessoa mais próxima do problema pra construir, e ao mesmo tempo manter trilha de auditoria, controle de acesso, cofre de credenciais e possibilidade de rollback do que foi feito. 

Uma das frases finais do Marcelo encerra bem o ponto. O usuário não-técnico não precisa aprender segurança. É o sistema que precisa proteger o usuário. 

O que muda na decisão de quem lidera a empresa 

Esse é o ponto pra você guardar dessa leitura. Não é “todo mundo na empresa vai virar programador”. É outra coisa, mais sutil e mais útil.

Você passa a ter, dentro de casa, gente experiente em problemas reais do seu negócio que pode contribuir com soluções funcionais em prazos curtos, sem depender de processo externo. Ao mesmo tempo, a sua função enquanto liderança da empresa passa a incluir decidir onde, como e com qual segurança esse movimento pode acontecer. Não é mais decisão só do time de tecnologia. É decisão estratégica de quem dirige a empresa. 

A pergunta prática que sai dessa leitura é dupla. Quem na sua empresa é a pessoa mais próxima de um problema relevante e tem condição (e desejo) de construir a solução? E quem, dentro da sua estrutura, está garantindo que o que ela construir seja seguro pra empresa rodar? 

A resposta a essas duas perguntas, juntas, vai separar quem entra cedo nesse movimento com lucro real de quem entra tarde só pra recolher passivo. 

Convite 

Vou continuar trazendo, nas próximas edições, leituras como essa, sempre cruzando o que estamos vendo no mercado com o que se aplica de fato no negócio de média empresa. Se você caiu aqui agora e quer ler os artigos anteriores da série sobre o AI Festival 2026, deixei todos publicados no blog da N!. 

Te convido a acompanhar. 

Até a próxima.